Viagens de uma BBaby

São quatro horas de uma tarde ensolarada em mais um verão infernal de quente. Abro a porta de vidro e sou abraçada pelo vento gelado do ar condicionado e, junto dele, o cheiro de papel termo sensível. Anos e anos de extratos retirados nos caixas eletrônicos acumulados em um só lugar com cheiro familiar. Fecho os olhos, sentindo alívio e nostalgia.
Abro os olhos e tenho cinco anos. Visto o uniforme da escola, uma curiosa combinação de amarelo-claro e vinho, muito tempo antes da moda do amarelo manteiga. Corro pelos corredores no fundo da agência. Um mundo proibido para muitos e cheio de coisas para minha pequena mente explorar. O que há em todos esses arquivos? Quantas pastas, tantos nomes diferentes (que nome estranho papai vai encontrar essa semana?), números e palavras que não compreendo (algumas até hoje, apesar dos amplos esforços de meu pai). Tem pão na copa. Eba! Como com margarina e a companhia de alguém que mal conheço. Um caixa, um gerente de contas, a faxineira? Não interessa, uma companhia é uma companhia. Conto para quem quiser ouvir sobre meu dia na escola.
Caminho até um caixa eletrônico, passando pelos envelopes de depósito, hoje tão desnecessários. Volto para quando meu pai me ensinava, dentro da agência mesmo, como preencher um desses e para que servia. Na escola, me exibo durante a aula em que ensinavam a preencher um cheque, pois papai já tinha me ensinado há muito tempo, mesmo sendo algo sério que se devia preencher com caneta! Nem lembro mais muito bem como se faz isso. Quem ainda usa cheque?
A tela do caixa eletrônico brilha à minha frente. Insiro o cartão, como sou instruída por algumas palavras em meio a tantas outras na tela oferecendo produtos financeiros. O sistema carrega e abre uma cena de mim aos oito anos, em um novo uniforme, agora branco e um verde horrível que eu detestava. Estou jogando jogo da velha (ou seria forca?) com a telefonista. O telefone toca e é meu sinal para deixar que ela trabalhe. Me enfio na minha toca segura para ler o próximo capítulo de algum livro de Harry Potter. Por toca, quero dizer o espaço sob a mesa do meu pai, onde me sinto protegida, até quase ser atingida pelos pés daquele que trabalha todos os dias para me sustentar e comprar o próximo livro, sem reclamar.
Vixi, qual é minha senha? Lembro que meu pai criou um acrônimo para ela. Papai e seus acrônimos... Mas qual era, mesmo? Reviro a mente e, no lugar dele, encontro uma memória confusa. Estamos almoçando. Não sei se tenho cinco, doze ou vinte anos. Se estamos em Jundiaí, Vargem Grande do Sul, São José do Rio Preto ou qualquer outra cidade. Meu pai me explica mais uma vez o que é um cheque especial e como ele arruína tanta gente. Não entendo direito até hoje, aos trinta e um, mas ainda evito como o diabo foge da cruz.
Ufa, o caixa aceita liberação por biometria e hoje minha digital colaborou! Termino a transação. Deseja imprimir o recibo? Não. Deseja realizar outra operação? Outra operação? Qual poderia ser? Quanto tempo que só apareço aqui para depositar o presente de aniversário do meu avô e liberar o aplicativo para uso no celular novo. O que mais fazíamos aqui? Ah, tirávamos extrato. Religiosamente, todo sábado, para “acertar o saldo”. Claro que eu não acertava saldo nenhum. Números demais, até para uma criança ótima em matemática, talvez por ter visto o pai sempre fazendo tantas contas com dinheiro em casa desde cedo.
Me dirijo até a porta de saída. Passo ao lado da porta giratória. Quantas vezes rodei nela até levar bronca do segurança. Olho além da parede de vidro e vejo a agência, tão diferente e ainda assim tão igual a todas pelas quais passei e explorei com a inocência e alegria de uma criança que não entendia bem tudo que estava em risco lá. As dívidas renegociadas, os créditos concedidos para ajudar a realizar um sonho, quantidades de dinheiro que não sou capaz de abstrair até hoje sendo negociadas e circuladas diariamente por pessoas que chamava, e até hoje chamo, de amigos, apesar de serem todos muito mais velhos que eu. Porque, ao menos no meu tempo (que frase de gente velha, mas tão real), ser cria do banco significava estar sempre mais cercada de adultos que de gente da nossa idade. Afinal, como manter contato com alguém por carta ou MSN aos seis anos de idade depois de se mudar de cidade pela enésima vez? As maiores constantes acabavam sendo os amigos dos pais, que de alguma forma você passava a considerar seus amigos também.
Também significava se perder um pouco a cada mudança, talvez para se adaptar a uma nova escola, com pessoas diferentes, cultura diferente, hábitos diferentes. Ou seria essa uma forma de encontrar um novo lado de si? Significava não saber responder à pergunta “de onde você é?” sem começar com “veja bem...”. Era ser de lugar nenhum e de todos os lugares e encontrar na família a definição absoluta de lar. Aprender a encontrar nos pais uma grande companhia, ao menos no caso de filhos únicos como eu, que estou inclusive viajando com os dois nesse exato instante. Significava aprender desde cedo a fazer amizade com todos, porque a qualquer momento pode ser necessário começar tudo outra vez e você aprende rápido que não adianta, a vida é sem graça demais sem amigos, mesmo que a amizade se perca mais tarde.
Olho para a porta e vejo entrar um pai com sua filha. Penso na nova geração. Deve ser mais fácil manter as amizades com as tecnologias e novas regras do banco. Sinto uma pontada de inveja. Mas sinto mesmo?
Abro a porta e sou tomada pelo ar quente novamente. Junto dele vem mais lembranças. As festas de fim de ano, os churrascos de comemoração das agências por baterem alguma meta, as novas agências, escolas e casas para explorar a cada mudança, tudo que aprendi a ser e fazer graças a como eu cresci. Volto para casa dentro do meu carro viajando pelas ruas e pelas lembranças. Quantos amigos bons espalhados por aí que eu não teria conhecido se tivesse uma infância “normal”.
Estaciono o carro enquanto concluo que não mudaria uma vírgula da minha história. Entro em casa e ouço, vindo de algum cômodo mais distante, “que bom, você chegou! Onde você estava?”. Deixo a bolsa sobre a mesa e respondo “veja bem...”.


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